O silêncio reinante.

O texto abaixo foi inspirado no conto de G. G. Márquez, “Só vim telefonar”.

 

 O silêncio reinava no cômodo. Ninguém se mexia. Ninguém falava. Ao longe os gritos de alguns pacientes eram abafados pelas paredes opressoras. Se não fosse pela respiração descompassada de Maria e pela  pesada do médico; poderia dizer que o quarto estava vazio.

   A mulher se encontrava presa entre os tentáculos da poltrona sob o olhar frio e calculista do Dr. Cardoso.

   -Então, senhorita, mandou me chamar? – questionou o homem pausadamente. A mulher, assustada, hesitou por alguns instantes.

   -Si-sim… –respondeu gaguejando. Já fazia quase um ano s desde que chegara aqui. Vultos passaram por ela, fazendo-a tremer da cabeça aos pés. Não causava brigas… comia tudo e tomava todos os medicamentos que as enfermeiras pediam… não tinha mais alucinações…

   -Tem certeza? –perguntou Cardoso arrastando-se nas sibilantes. Maria percebeu que a língua dele se semelhava a de uma cobra. Engoliu em seco e consentiu.

   -Quando chegou aqui, você pedia constantemente para telefonar para o seu “marido”. Algo a dizer sobre isso?

    A moça pensou um pouco – a lembrança das enfermeiras tentando acalmá-la para, logo em seguida, enfiarem-lhe os comprimidos goela abaixo.

   Ela estava desesperada e perdida. Não falava coisa com coisa. Agora sabia ter sido uma mentirosa. Aprendera a não contar mais mentiras. Sequer reparava nas aranhas que subiam pouco a pouco pelo seu braço, eriçando-lhes os pelos, submersas no branquíssimo pijama, insinuando-se lentamente até chegarem a pescoço

   -Bom, bom… –resmungou o homem escrevendo algo no papel à sua frente. –Entregue isso as guardas, por favor. – pediu destacando o papel e entregando-o a ela.

   Maria caminhou esperançosa até a porta, não ligando para as espirais que consumiam o quarto. Mais um pouco ela estaria livre. Já conseguia se ver lá fora, cercada de vida e liberdade. Cercada de pássaros, árvores e aromas. Não estaria livre de seus pensamentos e obsessões, mas não importa; encontrara a saída.

 

Praia

Silêncio. Sua mente estava silenciosa. Ao fundo o barulho das ondas faziam companhia ao garoto que estava sentado na areia.

Fugitivo. Fugia da realidade.

Mentiroso. Mentia que estava bem.

Alienado. Excluía-se da sociedade.

Uma idosa passou espirrando areia nele como se o próprio não existisse. Como se ele fosse invisível. Ele havia trabalhado muito para conseguir tal feito. Agora já sabia. Já sabia ser invisível .

Um ser estranho

Todos nós, seres deste planeta, olhamos para cima. Um barulho ensurdecedor havia preenchido o silêncio do imenso espaço. Uma luz vinha em nossa direção em uma velocidade não muito controlada. O que era aquilo? Uma estrela desgovernada? Ao longe eu podia ouvir os gritos dos outros, provavelmente apavorados por verem um objeto de tamanha magnitude vindo ao nosso encontro.

Em questão de segundos,  estávamos em nossos respectivos esconderijos esperando, até então, a morte certa.

Um tremor. Foi tudo o que senti. Ao olhar, um monstro saía de sua armadura de metal, estranhei. O que era aquilo? Ser estranho! Só quatro membros? E uma cabeça apenas?

O medo e a curiosidade se misturavam dentro de mim me deixando confuso.

Sai de dentro do esconderijo e me aproximei do desconhecido. A curiosidade fora maior do que o temor, mas ele continuava ali, instalado em meu peito.

Olhei melhor para a coisa e ouvi ele pronunciar algo:

-Jjfiwenufgowmrg!

-Como? –perguntei.

E esse foi o começo de uma grande aventura interplanetária.

 

Uma sala de aula

O professor falava algo no tablado. Qual era sua matéria mesmo? Inglês? Matemática? Ou seria história? O que ele estava fazendo ali? Por que ele não insistiu em seguir a carreira do pai? Pelo menos não ficaria falando sozinho por horas e ainda por cima ganharia mais.

Um grupo de garotas passavam bilhetinhos entre si. Ignorantes.

Meninos próximos estavam mexendo no celular como se as redes sociais fossem mais importantes do que educação.

A maioria da sala não estava prestando atenção na aula, ocupando-se com atividades aleatórias.

O garoto do cantinho cantava uma música qualquer.

Duas meninas conversavam sobre a morte.

Outra, quieta e excluída, estava escrevendo isso.

Como normalmente, ninguém ali estava interessado na aula.

11 de Setembro

Entrei no avião e sentei-me no lugar que a passagem havia determinado. Olhei para fora da janela e vi o aeroporto. Esperava que fosse a última vez que eu o veria, pelo menos, desacompanhado. A aeromoça mostrou as normas de segurança, mas ninguém realmente prestava atenção nela, especialmente eu. Minha cabeça estava voltada a uma loira de olhos negros à milhas de distância. Meu coração se apertou de saudade, mas saber que em algumas horas estaríamos juntos novamente, o fez se acalmar.

Em questão de minutos o avião cortou o céu costurando entre as nuvens. Pela primeira vez em meses, senti uma paz absurda. Logo eu estaria com meu amor. Encostei minha cabeça na poltrona fedida e adormeci.

(…)

Acordei depois de três horas de vôo. New York. Estava com saudades da Big Apple. Lá embaixo o trânsito parecia-me estranho. Talvez por estar tantos anos longe da minha cidade natal tenha causado essa sensação de estranheza.

O avião desviou levemente do percurso. Mas o que estava acontecendo? O aeroporto era para o outro lado… Olhei mais adiante e vi fumaça. Muita fumaça. Pela localização percebi que era uma das torres gêmeas. Ela havia sido atingida por algo. Anos no exército me fez ter um raciocínio rápido e bom o suficiente para eu perceber o que estava acontecendo. Eu iria morrer, e sem vê-la pela uma última vez. Sem poder tocá-la. Sem poder construir uma família ou a minha vida ao seu lado.

 “Eu te amo, Angel…” – foi à última coisa que eu pensei antes da colisão.

Corredor

Algumas notas no violão eram ouvidas entre a confusão de vozes. Havia um choro no fundo de tudo aquilo.

Um grupo de quatro meninas conversava e gesticulava.

A inspetora responsável por aquele corredor passava com um papel na mão.

Um grupo passeava rindo alto. Risos falsos.

Uma garota com uma mochila nas costas caminhava entre os amigos curiosos. Ela não se sentia bem, portanto iria embora mais cedo.

Alguém parou ao lado da garota sozinha com o livro, mas logo se retirou. Ninguém suportava ficar ao seu lado.

Mais risadas ao fundo.

A jovem mente vê um conhecido pelo corredor. Ele não pára pra cumprimentá-la, e ela finge estar escrevendo.

O som do violão fica mais alto.

Sua cabeça dói.

Então o sinal bate.

A garota se levanta do chão sujo, entra na sala e termina o texto colocando o titulo. Iria chamar sua nova criação de “corredor”.