Murphy Confirma

São Paulo, 17 de agosto de 2013

 

Querida Amélie,

Como vai nesses dias? Desculpe não ter te escrito antes, mas você deve imaginar como é a vida em São Paulo, não? É correria para todos os lados e muito estresse, porém no final das contas, vale a pena.

Descobri que minha semana decidiu se inspirar na lei de Murphy que diz que se alguma coisa pode dar errado, dará. Vamos começar com o dia de segunda-feira. Acordei meio irritada por nenhum motivo, talvez seja pelo simples fato de ser segunda, e você sabe que sempre nutri um ódio por esse dia da semana. Estudei um pouco, fiz os deveres que não havia terminado no final de semana e por fim fiquei esticada na cama pensando em absolutamente nada. Grande dia, não é?

Perto das onze horas minha mãe chegou com minha irmã do inglês para o almoço. Estava na cama de dona Thais quando ela me chamou no banheiro. Perguntou-me se eu sentia aquele cheiro de queimado. Acabei concordando porque de fato, o cheiro era evidente e estava ficando cada vez mais forte. Fui à cozinha para ver se tinha alguma boca do fogão soltando gás, mas nada. Então quando fui à varanda do quarto de minha mãe e vi fumaça preta. Muita fumaça preta. A primeira coisa que eu pensei foi “meu Deus”. Chamei a Thais para confirmar minhas suspeitas. Havia um incêndio no andar de cima. Ela logo saiu correndo para ligar a portaria, mas o telefone só dava ocupado. Foi tudo muito rápido. Minha mãe gritou para eu confirmar se era realmente o décimo nono que estava em chamas e falei que sim. O fogo saía diretamente daquele apartamento. Quando finalmente conseguimos falar com os funcionários da portaria, eles nos mandaram descer. Havia realmente um incêndio no prédio. Perguntei a minha mãe se pegava o Duque ou o Teco, meu gato e cachorro, respectivamente, mas ela não permitiu. Logo recomeçou a gritar com Stella para que ela calçasse logo a porcaria do sapato. Aproveitei a bagunça para pegar um casaco e meu celular. Cortou-me o coração não poder levar meus bichos. Conforme descíamos as escadas alguns homens ofegantes subiam com um ridículo mini extintor de incêndio vermelho. Com certeza aquela mixuruca não apagaria todo aquele fogo.

Ao chegarmos ao térreo comecei a tentar interfonar para os outros apartamentos, mas ninguém atendia em nenhum deles. Logo estávamos todos do outro lado da rua observando os policiais e os bombeiros fecharem a rua e na tentativa de apagarem o incêndio. Parecia que nada adiantava. O fogo havia se alastrado até a sacada do apartamento de cima. Vi uma pessoa com a cara preta saindo do prédio logo após ouvir os vidros sendo quebrados por causa das altas temperaturas.

Conforme o tempo passava os moradores chegavam. Invés de verem seu almoço pronto na mesa via seu prédio interditado. Algumas pessoas passavam e tiravam fotos, outras até mesmo estavam filmando. Houve um casal de idosos que reclamaram que éramos um bando de desocupados, e que por isto estávamos ali. Depois as pessoas falam que são os jovens de hoje em dia que são mal educados! Queria dar a bengala na cabeça deles. No entanto, para onde mais eu iria? Ela realmente achava que eu estava na rua vendo um incêndio por livre e espontânea vontade?! Cada uma que me aparece! Depois de alguns minutos que pareceram durar a eternidade, o fogo foi apagado e pudemos voltar para casa. Os bichos estavam bem.

Chegando a escola todos foram me perguntar o que havia acontecido. Como minha casa é super perto do colégio, todos viram o incêndio. Expliquei o que havia acontecido e fui informada que a nota da prova de história havia saído. Provavelmente você não acharia nada de relevante já que eu vou muito bem nessa matéria, mas nessa prova eu tinha certeza que havia ido muito mal. E realmente isso ocorreu. Não eram nem duas horas da tarde e eu já estava quase me tacando pela janela!

O dia pareceu se arrastar.

Quando voltei para casa no final do dia o cheiro de queimado havia tomado conta de todo o prédio. Dormi de cansaço.

No dia seguinte percebi que o Teco estavam andando engraçado. Ele andava e caia. Andava e caia. Preocupada levei-o ao veterinário e descobrimos que ele havia tido um AVC. Eu simplesmente não poderia perdê-lo. Confesso que desde que ganhei o Duque eu não tenho dado a ele a devida atenção, mas esse cachorro havia participado de mais da metade da minha vida! Tenho-o desde meus cinco ou seis anos! Seria uma perda e tanto… Agora ele está melhorando. Acho que nunca fiquei tão feliz em vê-lo latir!

Como se não bastasse tudo isso, houve um acidente na minha sala de aula. Não um simples acidente, como quando o João cortou a minha mão com a tesoura, foi um acidente muito sério. Um garoto cortou a bateria de um celular na sala de aula. Informação básica: se você cortar uma bateria ela pode simplesmente explodir! Sim, ela faz CABUMMM… Não sei o que diabos ele estava pensando! Será que ele odeia tanto a escola a ponto de tentar fazê-la pegar fogo? Graças a Deus a bateria não explodiu, mas soltou muita fumaça. Fumaça essa que é aparentemente tóxica. Depois disso muitas pessoas começaram a passar mal por causa disso. Uma delas passou a noite no hospital!

E hoje, quinta-feira, quase fui assaltada! Morar a 150 metros da escola e ser assaltada é o cúmulo! E amanhã terei que tomar vacina! E você me conhece o suficiente para saber que eu simplesmente nutro um ódio mortal por vacina desde daquele incidente aos quatro anos…

Ah! E percebeu que em uma semana eu quase morri duas vezes?! Meu recorde! Realmente, São Paulo não é uma cidade fácil, mas é uma cidade. Provavelmente você diria: “Jura que ela é uma cidade, Giulia?”. Mas quando digo cidade digo um lugar com virtudes e defeitos. Problemas e soluções. Um lugar que cuida de você, te abriga, te faz feliz; mas que mostra a realidade, nos obriga a crescer, nos ensina a viver. Pois bem, São Paulo é a minha cidade.

Espero que você venha me ver logo! Quando você entra em férias?! Mande-me noticias o mais rápido que puder.

Sinto sua falta! Guardo-te em meu coração.

 

Beijos e abraços,

 

Giu

11 de Setembro

Entrei no avião e sentei-me no lugar que a passagem havia determinado. Olhei para fora da janela e vi o aeroporto. Esperava que fosse a última vez que eu o veria, pelo menos, desacompanhado. A aeromoça mostrou as normas de segurança, mas ninguém realmente prestava atenção nela, especialmente eu. Minha cabeça estava voltada a uma loira de olhos negros à milhas de distância. Meu coração se apertou de saudade, mas saber que em algumas horas estaríamos juntos novamente, o fez se acalmar.

Em questão de minutos o avião cortou o céu costurando entre as nuvens. Pela primeira vez em meses, senti uma paz absurda. Logo eu estaria com meu amor. Encostei minha cabeça na poltrona fedida e adormeci.

(…)

Acordei depois de três horas de vôo. New York. Estava com saudades da Big Apple. Lá embaixo o trânsito parecia-me estranho. Talvez por estar tantos anos longe da minha cidade natal tenha causado essa sensação de estranheza.

O avião desviou levemente do percurso. Mas o que estava acontecendo? O aeroporto era para o outro lado… Olhei mais adiante e vi fumaça. Muita fumaça. Pela localização percebi que era uma das torres gêmeas. Ela havia sido atingida por algo. Anos no exército me fez ter um raciocínio rápido e bom o suficiente para eu perceber o que estava acontecendo. Eu iria morrer, e sem vê-la pela uma última vez. Sem poder tocá-la. Sem poder construir uma família ou a minha vida ao seu lado.

 “Eu te amo, Angel…” – foi à última coisa que eu pensei antes da colisão.