Avião, 04 de janeiro de 2014

Avião, 04 de janeiro de 2014 (como é estranho escrever “2014”)

Querida Amélie,

Caramba, estou frustrada! Acho que essa seja a palavra que eu esteja procurando para descrever como estou meu sentindo agora. Desculpe começar assim uma carta para você, mas deixe-me explicar: estou em um voo entediante para Maringá, uma cidade no Paraná para visitar familiares tentando a todo custo vencer a chatice que deve durar uma hora. Pensei em escrever sobre mil e duas coisas: como nós, seres humanos, nos achamos superiores às outras espécies, como uma amizade pode simplesmente acabar com algumas palavras, como algumas pessoas são especiais em nossas vidas, como eu estou me sentindo em me mudar de colégio (de novo), ou sobre o depoimento de um serial killer. No final, decidi escrever para você.

Ando meio desestimulada pra escrever, não sei o motivo disto, só sei que, dos milhares de temas existentes na terra, nenhum deles me faz querer continuar escrevendo. Bizarro isso, não? Vejamos, eu poderia encher sua mente sobre a minha opinião política, ou se eu concordo ou não com a Copa. Poderia falar sobre o fato de que há pessoas que simplesmente não têm o mínimo de educação, ou sei lá, eu acho que esse avião vai cair.

Já faz muito tempo que não escrevo. Há tempos estou tentando, mas nada de satisfatório é extraído da minha mente. Talvez seja porque estou muito agitada. Não, não estou praticando muito exercício físico. Para ser verdadeira, nenhum. Minha rotina nas férias foi reduzida a: acordar, tomar café da manhã, ir ver TV, almoçar, ler um livro, facebook, lanchinho da tarde, banho, irritar minha irmã, brincar com o gato, jantar, ver TV, comer mais um pouco e dormir. Emocionante, não? Acho que estou agitada porque estou com medo, mas ao mesmo tempo, estou confiante. Estranho essa mistura de sentimentos dentro de uma pessoa só. Foram muitas emoções esse ano (acho que devo dizer ano passado?): mudar para São Paulo, entrar em um colégio totalmente desconhecido, conhecer pessoas muito diferentes e com culturas que para mim são exóticas. Adotar um gatinho, familiares doentes, conhecer novas religiões.

Resumindo, acho que estou agitada por dois motivos: 1) a mudança de colégio. Estou apostando todas as minhas fichas nele. Espero que aquele seja a escola da minha vida. Nos dois últimos colégios que eu passei, apelidei eles de inferno e prisão. Quero que ano que vem, quando me perguntarem onde eu estudo eu diga com orgulho o nome dele e não com pêsames. 2) Lembra que eu te contei que conheci algumas pessoas da minha família que são incríveis? Eles são pessoas que você pode sentar e conversar a tarde inteira sobre todos os assuntos existentes e polêmicos, como política, religião e futebol. Pessoas divertidas e animadas sempre. Eles estão passando por alguns problemas de saúde sério. Mas, sei lá, tenho muita fé que tudo dará certo! Simplesmente sinto que tudo está acontecendo porque deveria ser assim, mas o final dessa história parece-me ser um final feliz nos padrões “humanos”.  

Bem, acabei esquecendo os bons modos… como você tem passado? E a dona Márcia e o seu Carlos? E o gatinho que vocês adotaram? Está se comportando? Espero notícias suas. Ahhh!!! Feliz 2014!

Beijos e abraços,

Giu. 

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Carta de uma fã

Compus o texto abaixo para o colégio. Nele assumi uma personalidade nojenta, detestável.
Por gentileza, fiquem com raiva da personagem que eu criei, não de mim.
J

 

***

 

Las Vegas, 27 de Agosto de 1969.

 

Querido Elvis,

 

Na vida encontramos muitas pessoas que deixam cicatrizes ruins em nós, você foi uma delas para mim. Com seu jeito de malandro, roupas
rebeldes e rebolado sexy
, você acabou me seduzindo. Não só a mim, mas
também a milhares de meninas histéricas – e de alguns homens também.

Lembro-me de quando ouvi sua voz rouca pela primeira vez; fiquei arrepiada. Logo no dia seguinte, falei com as minhas amigas sobre esse tal de Elvis. Em pouco tempo ficamos fanáticas pelo Presley!

Íamos ao camarote de seus shows – Deus me livre ficar na pista! -, comprávamos todos os seus discos, amávamos seus filmes e até mesmo conseguimos falar com sua mãe quando ela ainda estava viva (ter um pai ficoinfluente pode fazer milagres!). Mas devo dizer que no começo fiquei um pouco receosa de que você fosse negro. Pensei até mesmo em deixar de ser sua fã por causa disso. Mas um dia ouvi uma entrevista na rádio e descobri que você frequentava uma escola de brancos. Fiquei aliviada. Santo Deus me livre, eu, linda, loira, branca de olhos claros e rica, ser fã de uma pessoa negra pobre…

Lembro-me de quando fui ao set de gravação de um dos seus filmes. Fiquei sonhando acordada em te conhecer e nos apaixonarmos. Você nem me notou. Fiquei muito abalada, mas deixei passar. No entanto, quando soube que você estava com uma tal de Priscilla, isso me deixou louca de raiva! Como você preferiu aquelazinha em vez de mim?!

A gota d’água foi quando eu descobri que você fazia doações aos pobres. Você não tem obrigação de ajuda-los! Eles que vão trabalhar para ganhar dinheiro!
Imagine se todo mundo começa a fazer o mesmo! Todos nós seríamos iguais monetariamente! Deus me livre frequentar os mesmos locais que os negros!

Se antes eu te colocava em um pedestal, agora você está na lama para mim. Ter um ídolo é ter alguém em quem se espelhar. Eu nunca levaria como exemplo alguém que fica constantemente pensando no outro e fazendo algo para eles ou que fica dando mansões para os pais. O que eles fizeram por você não foi nada menos do que obrigação. E por que diabos você foi para o exército? A guerra não era sua!

Imagina se você morresse! Você deveria pensar mais em você – e em mim – antes de fazer essas loucuras!

Sua ex-fã,

Grace Fray