Praia

Silêncio. Sua mente estava silenciosa. Ao fundo o barulho das ondas faziam companhia ao garoto que estava sentado na areia.

Fugitivo. Fugia da realidade.

Mentiroso. Mentia que estava bem.

Alienado. Excluía-se da sociedade.

Uma idosa passou espirrando areia nele como se o próprio não existisse. Como se ele fosse invisível. Ele havia trabalhado muito para conseguir tal feito. Agora já sabia. Já sabia ser invisível .

Um ser estranho

Todos nós, seres deste planeta, olhamos para cima. Um barulho ensurdecedor havia preenchido o silêncio do imenso espaço. Uma luz vinha em nossa direção em uma velocidade não muito controlada. O que era aquilo? Uma estrela desgovernada? Ao longe eu podia ouvir os gritos dos outros, provavelmente apavorados por verem um objeto de tamanha magnitude vindo ao nosso encontro.

Em questão de segundos,  estávamos em nossos respectivos esconderijos esperando, até então, a morte certa.

Um tremor. Foi tudo o que senti. Ao olhar, um monstro saía de sua armadura de metal, estranhei. O que era aquilo? Ser estranho! Só quatro membros? E uma cabeça apenas?

O medo e a curiosidade se misturavam dentro de mim me deixando confuso.

Sai de dentro do esconderijo e me aproximei do desconhecido. A curiosidade fora maior do que o temor, mas ele continuava ali, instalado em meu peito.

Olhei melhor para a coisa e ouvi ele pronunciar algo:

-Jjfiwenufgowmrg!

-Como? –perguntei.

E esse foi o começo de uma grande aventura interplanetária.

 

Murphy Confirma

São Paulo, 17 de agosto de 2013

 

Querida Amélie,

Como vai nesses dias? Desculpe não ter te escrito antes, mas você deve imaginar como é a vida em São Paulo, não? É correria para todos os lados e muito estresse, porém no final das contas, vale a pena.

Descobri que minha semana decidiu se inspirar na lei de Murphy que diz que se alguma coisa pode dar errado, dará. Vamos começar com o dia de segunda-feira. Acordei meio irritada por nenhum motivo, talvez seja pelo simples fato de ser segunda, e você sabe que sempre nutri um ódio por esse dia da semana. Estudei um pouco, fiz os deveres que não havia terminado no final de semana e por fim fiquei esticada na cama pensando em absolutamente nada. Grande dia, não é?

Perto das onze horas minha mãe chegou com minha irmã do inglês para o almoço. Estava na cama de dona Thais quando ela me chamou no banheiro. Perguntou-me se eu sentia aquele cheiro de queimado. Acabei concordando porque de fato, o cheiro era evidente e estava ficando cada vez mais forte. Fui à cozinha para ver se tinha alguma boca do fogão soltando gás, mas nada. Então quando fui à varanda do quarto de minha mãe e vi fumaça preta. Muita fumaça preta. A primeira coisa que eu pensei foi “meu Deus”. Chamei a Thais para confirmar minhas suspeitas. Havia um incêndio no andar de cima. Ela logo saiu correndo para ligar a portaria, mas o telefone só dava ocupado. Foi tudo muito rápido. Minha mãe gritou para eu confirmar se era realmente o décimo nono que estava em chamas e falei que sim. O fogo saía diretamente daquele apartamento. Quando finalmente conseguimos falar com os funcionários da portaria, eles nos mandaram descer. Havia realmente um incêndio no prédio. Perguntei a minha mãe se pegava o Duque ou o Teco, meu gato e cachorro, respectivamente, mas ela não permitiu. Logo recomeçou a gritar com Stella para que ela calçasse logo a porcaria do sapato. Aproveitei a bagunça para pegar um casaco e meu celular. Cortou-me o coração não poder levar meus bichos. Conforme descíamos as escadas alguns homens ofegantes subiam com um ridículo mini extintor de incêndio vermelho. Com certeza aquela mixuruca não apagaria todo aquele fogo.

Ao chegarmos ao térreo comecei a tentar interfonar para os outros apartamentos, mas ninguém atendia em nenhum deles. Logo estávamos todos do outro lado da rua observando os policiais e os bombeiros fecharem a rua e na tentativa de apagarem o incêndio. Parecia que nada adiantava. O fogo havia se alastrado até a sacada do apartamento de cima. Vi uma pessoa com a cara preta saindo do prédio logo após ouvir os vidros sendo quebrados por causa das altas temperaturas.

Conforme o tempo passava os moradores chegavam. Invés de verem seu almoço pronto na mesa via seu prédio interditado. Algumas pessoas passavam e tiravam fotos, outras até mesmo estavam filmando. Houve um casal de idosos que reclamaram que éramos um bando de desocupados, e que por isto estávamos ali. Depois as pessoas falam que são os jovens de hoje em dia que são mal educados! Queria dar a bengala na cabeça deles. No entanto, para onde mais eu iria? Ela realmente achava que eu estava na rua vendo um incêndio por livre e espontânea vontade?! Cada uma que me aparece! Depois de alguns minutos que pareceram durar a eternidade, o fogo foi apagado e pudemos voltar para casa. Os bichos estavam bem.

Chegando a escola todos foram me perguntar o que havia acontecido. Como minha casa é super perto do colégio, todos viram o incêndio. Expliquei o que havia acontecido e fui informada que a nota da prova de história havia saído. Provavelmente você não acharia nada de relevante já que eu vou muito bem nessa matéria, mas nessa prova eu tinha certeza que havia ido muito mal. E realmente isso ocorreu. Não eram nem duas horas da tarde e eu já estava quase me tacando pela janela!

O dia pareceu se arrastar.

Quando voltei para casa no final do dia o cheiro de queimado havia tomado conta de todo o prédio. Dormi de cansaço.

No dia seguinte percebi que o Teco estavam andando engraçado. Ele andava e caia. Andava e caia. Preocupada levei-o ao veterinário e descobrimos que ele havia tido um AVC. Eu simplesmente não poderia perdê-lo. Confesso que desde que ganhei o Duque eu não tenho dado a ele a devida atenção, mas esse cachorro havia participado de mais da metade da minha vida! Tenho-o desde meus cinco ou seis anos! Seria uma perda e tanto… Agora ele está melhorando. Acho que nunca fiquei tão feliz em vê-lo latir!

Como se não bastasse tudo isso, houve um acidente na minha sala de aula. Não um simples acidente, como quando o João cortou a minha mão com a tesoura, foi um acidente muito sério. Um garoto cortou a bateria de um celular na sala de aula. Informação básica: se você cortar uma bateria ela pode simplesmente explodir! Sim, ela faz CABUMMM… Não sei o que diabos ele estava pensando! Será que ele odeia tanto a escola a ponto de tentar fazê-la pegar fogo? Graças a Deus a bateria não explodiu, mas soltou muita fumaça. Fumaça essa que é aparentemente tóxica. Depois disso muitas pessoas começaram a passar mal por causa disso. Uma delas passou a noite no hospital!

E hoje, quinta-feira, quase fui assaltada! Morar a 150 metros da escola e ser assaltada é o cúmulo! E amanhã terei que tomar vacina! E você me conhece o suficiente para saber que eu simplesmente nutro um ódio mortal por vacina desde daquele incidente aos quatro anos…

Ah! E percebeu que em uma semana eu quase morri duas vezes?! Meu recorde! Realmente, São Paulo não é uma cidade fácil, mas é uma cidade. Provavelmente você diria: “Jura que ela é uma cidade, Giulia?”. Mas quando digo cidade digo um lugar com virtudes e defeitos. Problemas e soluções. Um lugar que cuida de você, te abriga, te faz feliz; mas que mostra a realidade, nos obriga a crescer, nos ensina a viver. Pois bem, São Paulo é a minha cidade.

Espero que você venha me ver logo! Quando você entra em férias?! Mande-me noticias o mais rápido que puder.

Sinto sua falta! Guardo-te em meu coração.

 

Beijos e abraços,

 

Giu

Uma sala de aula

O professor falava algo no tablado. Qual era sua matéria mesmo? Inglês? Matemática? Ou seria história? O que ele estava fazendo ali? Por que ele não insistiu em seguir a carreira do pai? Pelo menos não ficaria falando sozinho por horas e ainda por cima ganharia mais.

Um grupo de garotas passavam bilhetinhos entre si. Ignorantes.

Meninos próximos estavam mexendo no celular como se as redes sociais fossem mais importantes do que educação.

A maioria da sala não estava prestando atenção na aula, ocupando-se com atividades aleatórias.

O garoto do cantinho cantava uma música qualquer.

Duas meninas conversavam sobre a morte.

Outra, quieta e excluída, estava escrevendo isso.

Como normalmente, ninguém ali estava interessado na aula.

Carta de uma fã

Compus o texto abaixo para o colégio. Nele assumi uma personalidade nojenta, detestável.
Por gentileza, fiquem com raiva da personagem que eu criei, não de mim.
J

 

***

 

Las Vegas, 27 de Agosto de 1969.

 

Querido Elvis,

 

Na vida encontramos muitas pessoas que deixam cicatrizes ruins em nós, você foi uma delas para mim. Com seu jeito de malandro, roupas
rebeldes e rebolado sexy
, você acabou me seduzindo. Não só a mim, mas
também a milhares de meninas histéricas – e de alguns homens também.

Lembro-me de quando ouvi sua voz rouca pela primeira vez; fiquei arrepiada. Logo no dia seguinte, falei com as minhas amigas sobre esse tal de Elvis. Em pouco tempo ficamos fanáticas pelo Presley!

Íamos ao camarote de seus shows – Deus me livre ficar na pista! -, comprávamos todos os seus discos, amávamos seus filmes e até mesmo conseguimos falar com sua mãe quando ela ainda estava viva (ter um pai ficoinfluente pode fazer milagres!). Mas devo dizer que no começo fiquei um pouco receosa de que você fosse negro. Pensei até mesmo em deixar de ser sua fã por causa disso. Mas um dia ouvi uma entrevista na rádio e descobri que você frequentava uma escola de brancos. Fiquei aliviada. Santo Deus me livre, eu, linda, loira, branca de olhos claros e rica, ser fã de uma pessoa negra pobre…

Lembro-me de quando fui ao set de gravação de um dos seus filmes. Fiquei sonhando acordada em te conhecer e nos apaixonarmos. Você nem me notou. Fiquei muito abalada, mas deixei passar. No entanto, quando soube que você estava com uma tal de Priscilla, isso me deixou louca de raiva! Como você preferiu aquelazinha em vez de mim?!

A gota d’água foi quando eu descobri que você fazia doações aos pobres. Você não tem obrigação de ajuda-los! Eles que vão trabalhar para ganhar dinheiro!
Imagine se todo mundo começa a fazer o mesmo! Todos nós seríamos iguais monetariamente! Deus me livre frequentar os mesmos locais que os negros!

Se antes eu te colocava em um pedestal, agora você está na lama para mim. Ter um ídolo é ter alguém em quem se espelhar. Eu nunca levaria como exemplo alguém que fica constantemente pensando no outro e fazendo algo para eles ou que fica dando mansões para os pais. O que eles fizeram por você não foi nada menos do que obrigação. E por que diabos você foi para o exército? A guerra não era sua!

Imagina se você morresse! Você deveria pensar mais em você – e em mim – antes de fazer essas loucuras!

Sua ex-fã,

Grace Fray