Astronauta

Astronauta

Quando somos pequenos sonhamos com a nossa profissão. As meninas com 7 ou 8 anos falam que querem ser princesas e viver em um castelo encantado. Já as crianças do sexo oposto que estão na mesma idade, como era no meu caso, queriam ser astronautas e/ou presidentes. Ao contrário de muitos, consegui realizar meu sonho, ou meu pesadelo, de seguir uma dessas carreira. Olá, meu nome é Nicolas e sou um astronauta.
Lembro-me do dia que sai da órbita Terra para logo navegar entre os outros planetas. Uma imensidão escura, fria mas no primeiro momento aconchegante. Durante todo o percurso fazia anotações em um caderninho que levei na viagem. Conheci a Lua, Vênus, Saturno e até mesmo o famoso Marte! Experiências fantásticas que ficariam guardadas em minha cabeça para sempre.
Quando o relógio da nave informou-me que já faria três meses que eu me encontrava dentro dela, decidi que estava na hora de voltar. Mas para o meu desespero, a pequena caixa de metal não obedecia aos meus comandos. Tentei de tudo, ligar para a central, mandar sinal de S.O.S; mas nada! Depois de cinco dias tentando de tudo cheguei à conclusão de que estava sozinho no infinito espaço.
Nos dias que se seguiram me senti tão sozinho quanto todos os satélites que passavam a minha volta. Agora que eu vi de fora da Terra percebi que as estrelas não são tão belas como costumavam ser e que o meu sonho de infância não era tão bom quanto imaginava.
O silêncio havia se virado contra mim. Se na Terra eu queria ficar sozinho, agora eu queria ter com quem conversar. E música! Jesus, como a música fazia falta para mim. A saudade estava esmagando meu coração com forças que nunca imaginei que era possível existir! No final das contas, o silêncio estava me deixando surdo.
Ia dormir sabendo que iria acordar a noite gritando com pesadelos. Dentro deles eu nunca consegui voltar para a Terra, e eu estava temendo que esses pesadelos se tornassem realidade. Será que todos haviam me esquecido?
“O que eu fiz para merecer isso? Será que fiz algo para alguém para merecer um castigo com tão magnitude? O QUE EU FIZ?!” gritei de dentro da cabine.
“A melhor pergunta seria: o que você não fez?” respondeu uma outra voz, parecida com a minha devo comentar.
“Como assim?! Eu fui um filho exemplar! Eu nunca deixei de trabalhar! Sempre respeitei todos! O que mais eu poderia ter feito?!” perguntei a voz.
“Você se contentou com o mundo em que viveu? Você aceitou que era apenas aquilo que precisava? Já parou para pensar que você foi ganancioso em tentar buscar sua felicidade em outros planetas? De que tentou achar felicidade nos outros, ao invés de procurá-la dentro de você mesmo?” respondeu-me.
Olhei no espelho e vi que havia outro de mim dentro dele. Eu só poderia estar ficando louco!
Pego o espelho e tento jogá-lo contra a parede, mas não consigo. A gravidade zero não me permitia fazer isso. Se antes eu já estava frustrado, agora estava quase soltando fumaças!
O espelho ficou flutuando em minha frente como se caçoasse de mim. O meu rosto ficava sendo refletido irritantemente. Os cabelos ruivos estavam arrumados e eu vestia um terno elegante, que vagamente me lembrava de ter usado no funeral de minha avó. Um sorriso se estampava em minha face me deixando no mínimo com vontade de socar minha própria cara.
Viro-me para minha “cama” e prendo o cinto em volta de minha cintura para que eu pudesse dormir com tranquilidade. Mas o que foi me dito ficava em minha cabeça de forma que o sono não pudesse me dominar.
Por fim mandei um último pedido de ajuda para a central. Escrevi algo como: “Por favor, me deixe voltar! Quero abortar a missão! A solidão é demais! Estou alucinando, não por falta de comida, mas por causa da realidade! Ainda há alguém ai?! Vocês são tudo para mim! S.O.S!”
A partir disso foram delírios após delírios para que eu dormisse eternamente no insano e solitário espaço.

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